Com a metodologia simples, efetiva e de baixo custo do Cinco Básicos, município do litoral de São Paulo apoia famílias e profissionais a promover desenvolvimento saudável na primeira infância
Desde 2021, a Prefeitura do Guarujá, no litoral de São Paulo, vem introduzindo os princípios do movimento Cinco Básicos junto às famílias atendidas no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) dos Centros de Referência e Assistência Social (CRAS) do município. Além disso, realizou capacitações e palestras para profissionais das Secretarias de Assistência Social, Saúde e Educação, da Promotoria e do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), das Casas de Acolhimento e dos Núcleos de Educação Infantil Conveniados com a prefeitura (NEIC). No total, já foram impactadas cerca de 2.700 famílias e 100 profissionais, entre assistentes sociais, psicólogos e gestores.
Com o apoio da metodologia simples e divertida do movimento, incluindo vídeos que trazem exemplos do dia a dia, as famílias conseguiram incorporar mudanças em suas rotinas, no sentido de fortalecer o vínculo com seus filhos, netos ou sobrinhos, ao colocar em prática os cinco princípios básicos para o desenvolvimento infantil: 1) Dar muito amor e controlar o estresse; 2) Falar, contar e apontar; 3) Contar, agrupar e comparar; 4) Explorar através do movimento e da brincadeira; e 5) Ler e discutir histórias.
Tudo isso essencialmente com informação e incentivo, sem precisar investir dinheiro ou mais tempo. “A gente trabalha com muitas mulheres que, na sua infância, não tiveram demonstração de amor e oportunidade de brincar. Ali [no SCFV] foi o momento em que elas começaram a repensar o comportamento em relação aos filhos e também fizeram um resgate da sua infância”, conta a assistente social Elina Robles. Ao perceber os ganhos de participar dos encontros em grupo, várias delas se tornaram multiplicadoras, convidando as irmãs e outras conhecidas para também participar do projeto.
A seguir, a psicóloga Ivelise Schalch e a assistente social Laila Bilato, que lideram o movimento no Guarujá, fazem um balanço da implementação e sinalizam os próximos passos.
CINCO BÁSICOS – O que motivou o município do Guarujá a fazer parte do movimento Cinco Básicos? Que necessidades precisavam ser atendidas?
IVELISE E LAILA – Em 2015, conhecemos o The Basics no V Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância [promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI) e vimos a oportunidade de utilizar uma linguagem objetiva no trabalho com as famílias atendidas no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) de 0 a 6 anos. Nós percebíamos a dificuldade delas em se apropriar dos conteúdos trabalhados nos grupos e inseri-los em suas ações práticas da rotina.
Em 2021, com a necessidade de realizar o trabalho de forma remota devido à pandemia de Covid-19, entramos em contato com o The Basics em busca de vídeos e materiais em português. Soubemos, então, que já existia o movimento Cinco Básicos no Brasil e vislumbramos a possibilidade de expandir o engajamento com o movimento para outras secretarias além da Assistência Social, atingindo, assim, mais famílias.
Mural dos Cinco Básicos no Núcleo de Educação Infantil Conveniado (NEIC) Universo da Criança.
CINCO BÁSICOS – Poderiam resumir as principais ações implementadas? Quais delas foram mais efetivas?
IVELISE E LAILA – Nós utilizamos os Cinco Básicos como ferramenta para auxiliar o planejamento e a execução das ações no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), inicialmente em dois Centros de Referência e Assistência Social (CRAS) e, em seguida, ampliamos o uso da metodologia para os quatro CRAS do município.
Também promovemos palestras introdutórias em reuniões de Rede com representantes das Secretarias de Assistência Social, Saúde, Educação, Promotoria e Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e gravamos vídeos oficiais do Cinco Básicos em português com a participação de algumas famílias do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos.
Fizemos também capacitações para os funcionários das Casas de Acolhimento e para representantes dos Núcleos de Educação Infantil Conveniados com a prefeitura (NEIC).
Para introduzir o movimento no município, nos reunimos com o secretário e os diretores da Secretaria de Assistência Social para apresentação da proposta e assinamos um termo de cooperação entre o Cinco Básicos Brasil e a Prefeitura do Guarujá, com suporte contínuo do Cinco Básicos por meio de reuniões mensais, apoio técnico e fornecimento de materiais para divulgação.
Em relação à efetividade das implementações, pudemos observar que o trabalho no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos possibilitou mudanças na relação dos cuidadores com as crianças. Além disso, a capacitação nos NEICs possibilitou maior número de profissionais da rede engajados em disseminar os Cinco Básicos com as famílias.
Profissionais do Núcleo de Educação Infantil Conveniado (NEIC) Vereador Luis Carlos Romazzini preparam apresentação para pais e cuidadores sobre os cinco Princípios básicos.
CINCO BÁSICOS – Quais foram as principais mudanças que vocês percebem nas famílias e nos profissionais capacitados? E o que essas pessoas apontam como maiores ganhos de ter participado das formações? Além disso, o que referem como maiores desafios de colocar em prática?
IVELISE E LAILA – Percebemos que os profissionais estão mais seguros para planejar as ações com famílias e abordar as questões do desenvolvimento infantil. Também estão mais engajados para conversar com elas porque a metodologia do Cinco Básicos já propõe uma participação ativa dos adultos no desenvolvimento da criança. E eles, de fato, têm percebido um maior vínculo das famílias com os serviços.
Em relação às mudanças percebidas nas famílias, várias relatam que passaram a ouvir mais a criança. Além disso, elas têm percebido como seu estado emocional e estresse afetam os pequenos e dizem estar conseguindo estabelecer rotinas para reduzir esse estresse em casa. As famílias, em geral, também dizem estar entendendo melhor a importância da primeira infância.
Quanto aos desafios, temos principalmente uma cultura de educação violenta com castigos e punições e a dificuldade de algumas famílias estabelecerem rotinas.

Ivelise e Laila realizam formação para profissionais que atuam nas unidades de acolhimento institucionais do Município
CINCO BÁSICOS – Que elementos contribuíram de maneira mais significativa para o engajamento das famílias e dos profissionais no projeto? E quais foram os fatores-chave para ganhar escala com o programa?
IVELISE E LAILA – A objetividade da linguagem e a clareza das informações sobre como transformar os princípios básicos de cuidados na primeira infância em ações práticas na rotina, sem dúvida, contribuíram muito para o engajamento das famílias e dos profissionais. Além disso, a ênfase na importância da primeira infância para o desenvolvimento da criança em todo o seu potencial e o embasamento das informações em evidências científicas foram fundamentais. O fator-chave para o ganho de escala foi a facilidade de implementação do programa com baixo custo.
CINCO BÁSICOS – Quais equipamentos têm apoiado a disseminação do Cinco Básicos no Guarujá? Como é a articulação entre as diferentes Secretarias?
IVELISE E LAILA – O Centro de Referência e Assistência Social (CRAS), o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA) e os Núcleos de Educação Infantil Conveniados com a prefeitura (NEICs) têm participado das ações. Em relação à articulação entre as diferentes Secretarias, essa é uma conversa que está se iniciando através de reuniões com o Secretário de Assistência Social, com o Comitê da Primeiríssima Infância e com o planejamento de um encontro que acontecerá em novembro deste ano, envolvendo representantes das Secretarias de Assistência Social, Saúde e Educação.

Famílias participantes do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) do CRAS Santa Rosa recebem kit para apoiar a prática dos Cinco Básicos.